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Oportunidades para o Brasil na cadeia farmacêutica

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Oportunidades para o Brasil na cadeia
Valor Econômico
31/03/2009
Ricardo Camargo Mendes
 
A indústria farmacêutica passa por um momento de reposicionamento estrutural em toda a sua cadeia de valor. Essas mudanças resultam de fatores internos às empresas e seus modelos de negócios, relacionados principalmente à capacidade de gerarem inovações que possam ser colocadas no mercado, mas também de fatores externos, fruto sobretudo de um maior ativismo regulatório por parte dos governos em todo o mundo. Esse cenário abre importantes oportunidades para o Brasil.

O pipeline de novos produtos a serem lançados pelas principais empresas do mundo vem se reduzindo a cada ano. Visando contornar esse problema, as grandes empresas do setor passaram a buscar inovações na área de biotecnologia. A descoberta de novos medicamentos de base biológica, por sua vez, aumentou significativamente os custos de inovação, dado que os processos para pesquisa dessa natureza ainda não foram padronizados. Além disso, a reação desses produtos no organismo pode variar muito de indivíduo para indivíduo, aumentando as dificuldades para a aprovação de medicamentos de origem biotecnológica em testes clínicos.

Além de gargalos na área de pesquisa e desenvolvimento, a indústria farmacêutica também enfrenta problemas na áreas industrial e comercial. Grande parte do parque industrial farmacêutico tem se tornado obsoleto com o avanço dos produtos biotecnológicos e de tecnologias mais avançadas. Decorre disso a centralização da produção em poucas plantas globais, dado que a escala dos mercados domésticos não justifica os vultosos investimentos nessas novas plantas.

Do ponto de vista comercial, além da própria concorrência com os medicamentos genéricos, em diversos países está havendo uma concentração dos distribuidores intermediários, dificultando os termos de negociação com as empresas. Outro desafio enfrentado pelo setor é o modelo comercial baseado em propaganda médica, que cada vez mais se mostra ineficiente para mercados com consumidores informados e com poder próprio de decisão.

Do ponto de vista regulatório, cada vez mais as empresas têm que operar em mercados com altos padrões sanitários. De forma análoga, há uma crescente pressão para que haja mudanças nos programas de saúde pública em todo o mundo. Isso se reflete em constantes negociações para redução nos preços dos medicamentos vendidos para governos, ou ainda maior controle sobre os preços dos produtos colocados nos mercados.

A questão que se coloca diante desse cenário é: como as empresas do setor estão reagindo a esses fatores? De forma bastante simplicada, nota-se um duplo movimento.Por um lado, verifica-se um crescimento no número de fusões e aquisições. Desde 1999 elas somaram 13 com valores maiores do que US$ 15 bilhões. Por meio dessas operações, as empresas buscam aumentar seus pipelines de produtos ou diversificar seus negócios. Muitas inclusive passaram a operar também no mercado de genéricos.

Outra estratégia é a descentralização de processos inovadores, produtivos e comerciais. A indústria farmacêutica é tradicionalmente um setor bastante centralizado em comparação a outras indústrias. Os casos de terceirização dos processos ou mesmo transferência para filiais em países com custos mais competitivos eram bastante raros. Até recentemente, as unidades produtivas espalhadas pelo mundo se resumiam a fabricar medicamentos desenvolvidos nos laboratórios das matrizes e a operação local das empresas se focava na comercialização desses e de outros produtos importados.

A busca por novidades no campo da inovação, assim como pela redução de custos nas áreas de produção e comercialização das empresas, tem promovido uma mudança cultural na direção da descentralização. Já são bastante comuns as parcerias entre empresas especializadas no desenvolvimento de tecnologia aplicada à saúde na área de biotecnologia (assim como departamentos de universidades e centros de pesquisa) com grandes industriais farmacêuticas. Contratos com prestadores de serviços localizados em diferentes localidades geográficas ao longo de toda a cadeia de valor também estão se tornando comuns. Nota-se ainda o crescente papel que as filiais dessas empresas localizadas em alguns países em desenvolvimento vêm assumindo nos diversos processos de algumas empresas.

É justamente essa descentralização que abre interessantes oportunidades para o Brasil. Nos últimos anos, a promoção da inovação se tornou uma prioridade para o governo, que resultou na implantação de diversas políticas e medidas que buscam colocar o país no mapa da pesquisa e do desenvolvimento global. Há hoje uma confluência de fatores que favorecem a participação efetiva do Brasil nas cadeias globais de inovação para a indústria farmacêutica. Nota-se, no entanto, que em comparação a outros países em desenvolvimento, sobretudo China e Índia, ainda são limitadas as atividades desenvolvidas pelas empresas no país.

O Brasil deve estar atento às janelas de oportunidades que se abrem com esse reposicionamento global da cadeia farmacêutica. Os esforços que tem sido feitos para a criação de um parque industrial de capital nacional podem e devem ser combinados com ações que promovam a capacidade das empresas locais de biotecnologia e de outras etapas da cadeia farmacêutica de se integrarem às operações das grandes empresas globais. É necessário também reduzir alguns gargalos logísticos e tributários que facilitem a transferência de operações para o país.

Por fim, o Brasil deve adotar um novo discurso em relação à proteção à propriedade intelectual e temas de tecnologia em fóruns internacionais. Apesar de ter uma legislação bastante avançada e que protege integralmente as patentes farmacêuticas, o discurso brasileiro continua causando insegurança às empresas do setor. Do ponto de vista de um estrategista localizado na Europa ou Estados Unidos, outros países em desenvolvimento, muitas vezes com proteção efetiva da propriedade intelectual inferior à do Brasil, parecem locais muito mais seguros para tercerizar seus processos ou mesmo investir em inovação própria. O Brasil não pode perder mais esse bonde que carrega a indústria farmacêutica internacional.

Ricardo Camargo Mendes é mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Cambridge e sócio-diretor da Prospectiva Consultoria.

 

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